Pesquisadores da Universidade Estadual do Maranhão (Uema) acabam de publicar um estudo inédito sobre a trajetória do Forte São Luís, marco fundacional da capital maranhense, nos Anais do Museu Paulista, uma das revistas de maior prestígio na área de historiografia no Brasil, classificada como A1 pelo sistema Qualis-Capes. O artigo “Do Forte à Avenida: transformações da cultura material no marco fundacional de São Luís (1612-2025)”, de autoria do professor Érico Peixoto Araujo e da arquiteta Ana Beatriz Pinheiro e Pinho, revela três mapas históricos inéditos que ajudam a reconstruir a trajetória do Forte desde sua fundação pelos franceses em 1612 até sua atual configuração como parte da Avenida Beira-Mar.

Fonte: O mez: a viagem…(1906).
A pesquisa, que chega em um momento oportuno, o aniversário de São Luís, oferece uma leitura essencial para quem se interessa por patrimônio histórico, memória urbana e a história da capital maranhense. O estudo analisa as transformações da cultura material do Forte São Luís, evidenciando como este elemento arquitetônico militar passou de lugar de defesa e símbolo do poder colonial a espaço de circulação urbana, desprovido de significado histórico para a população contemporânea. Construído pelos franceses e pelos índios tupinambás em 1612, o Forte simbolizou a fundação da França Equinocial. Três anos depois, a colônia foi tomada pelos portugueses, que mantiveram a Fortaleza para defender o território, mas reedificaram sua estrutura em pedra e cal.
No século XVII, a fortificação foi responsável por orientar o crescimento da cidade. O território se expandiu sob o traçado do engenheiro português Francisco Frias de Mesquita, que desenhou uma malha quadriculada, configuração que permanece intacta no centro histórico da capital. Em contraponto, o Forte São Luís se apresenta desfigurado atualmente. De lugar marcante e imponente no período colonial, a estrutura foi transformada em um trecho da Avenida Beira Mar.
O estudo demonstra que as sucessivas intervenções, como o desarmamento em 1883, a demolição do portão em 1886 e o seccionamento das muralhas na década de 1940, transformaram progressivamente essa fortificação de lugar identitário em não-lugar urbano. “O Forte São Luís se tornou um não lugar no cenário urbano atual, e seus elementos passam despercebidos no espaço”, destacam os autores, que se ampararam em pesquisas bibliográficas, documentos históricos, discursos de presidentes da província e relatos de historiadores e memorialistas para investigar o passado do Forte e reviver sua memória.
A publicação chega em um momento de reflexão sobre a história de São Luís, contribuindo para a compreensão dos processos de ressignificação da cultura material urbana e da relação entre memória coletiva e espaço construído em contextos de modernização urbana. O ineditismo do trabalho está nos três mapas publicados e também na análise temporal do Forte em suas várias fases ao longo do tempo, oferecendo uma nova perspectiva sobre a verdadeira dimensão do Forte, que até então não havia sido explorada pela historiografia.
Sobre os autores
O professor Érico Peixoto Araujo é graduado em Engenharia Civil pela Uema, especialista em Ciência da Computação pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), mestre em Engenharia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e doutor em Urbanismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atualmente, é professor associado I da Uema e chefe do Laboratório de Informática da universidade. É líder do grupo de pesquisa LABHAB+INOVAÇÃO da Uema junto ao Diretório do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) desde 2020 e participante do Comitê Gestor da Estratégia Building Information Modeling em Maranhão (BIM-MA). Atua em pesquisas historiográficas sobre obras públicas e desenvolvimento das cidades e, também, em pesquisas na área da informática que envolvem levantamento por nuvens de pontos e tecnologia BIM.
A arquiteta e urbanista Ana Beatriz Pinheiro e Pinho é graduada pela Uema, onde desenvolve projetos de pesquisa e extensão. Atualmente, é arquiteta da empresa Lastro Engenharia e realiza atividades que envolvem as áreas da arquitetura e engenharia civil.
O artigo está disponível para leitura no periódico dos Anais do Museu Paulista e reforça a importância de reconhecer a história e a identidade dos lugares na construção da cidade contemporânea.
Referência:
ARAUJO, Érico Peixoto; PINHO, Ana Beatriz Pinheiro e. Do Forte à Avenida: transformações da cultura material no marco fundacional de São Luís (1612-2025). Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material, São Paulo, v. 34, p. 1-53, 2026.