O pesquisador Francisco Borges Costa, vinculado ao Departamento de Patologia e ao Programa de Pós-Graduação em Ciência Animal (PPGCA) da Universidade Estadual do Maranhão (Uema), é um dos autores de um estudo internacional que identificou um novo betacoronavírus em morcegos da América do Sul. O artigo foi publicado em 5 de setembro de 2026, na revista científica Nature Communications, sob o título A divergent betacoronavirus with a functional furin cleavage site in South American bats.
A pesquisa apresenta a caracterização do genoma completo de um betacoronavírus identificado em um morcego da espécie Pteronotus parnellii, coletado no Brasil. A análise filogenética indica que o vírus é suficientemente distinto dos cinco subgêneros de betacoronavírus reconhecidos para justificar a proposição de um novo subgênero, ampliando o conhecimento científico sobre a diversidade desses agentes virais.
Os betacoronavírus incluem vírus associados a importantes crises sanitárias nas últimas décadas, como SARS-CoV, responsável pela síndrome respiratória aguda grave identificada em 2002; MERS-CoV, associado à síndrome respiratória do Oriente Médio, identificada em 2012; e SARS-CoV-2, causador da covid-19, identificada em 2019.
Um dos achados do estudo foi a identificação, na proteína spike do BRZ batCoV encontrado no morcego, de um sítio funcional de clivagem pela furina na região de junção S1/S2. A sequência de aminoácidos identificada apresenta uma diferença de apenas um aminoácido em relação ao motif correspondente encontrado no SARS-CoV-2. Os pesquisadores também identificaram, por meio de análises estruturais comparativas, características semelhantes em outros betacoronavírus de morcegos.
Os resultados contribuem para compreender a evolução dos coronavírus e as características moleculares que podem ser relevantes para o estudo de seu potencial zoonótico, ou seja, da possibilidade de transmissão de animais para seres humanos. A identificação dessas características, entretanto, não significa que BRZ batCoV tenha capacidade comprovada de infectar pessoas ou represente uma ameaça imediata à saúde pública.
Colaboração científica internacional
O estudo reúne pesquisadores de instituições de diferentes países, com participação de equipes do Brasil, Japão, Bélgica, Alemanha, Estados Unidos e Austrália. A colaboração articula conhecimentos nas áreas de virologia, patologia, microbiologia e saúde animal, reforçando a importância das redes internacionais para o avanço da pesquisa científica.
A liderança do trabalho foi da pesquisadora Dra. Tokiko Watanabe, vinculada à The University of Osaka’, no Japão, que conduziu a pesquisa do início ao fim. A publicação também conta com a participação de Kosuke Takada, Yoshihiro Kawaoka, Edward C. Holmes, Tadashi Maemura, Tiago J. S. Lopes, Jane Megid, Mateus de Souza Ribeiro Mioni, Eric Takashi Kamakura de Carvalho Mesquita e outros pesquisadores de instituições internacionais.
Para Francisco Borges Costa, a publicação representa um avanço importante na produção de conhecimento sobre vírus com potencial de relevância para a saúde pública.
“A publicação deste estudo na prestigiada revista internacional Nature Communications reflete a importância de gerar conhecimento científico estratégico para preencher lacunas globais sobre vírus com potencial pandêmico. O artigo avança no entendimento da diversidade filogenética e funcional dos coronavírus em morcegos na América do Sul, sob uma perspectiva evolutiva e zoonótica”, destaca o pesquisador.
Ele ressalta que a cooperação entre pesquisadores de diferentes países é fundamental para ampliar a capacidade de investigação e contribuir para a prevenção de futuras emergências sanitárias.
“Para nós, pesquisadores, a aceitação do trabalho por um periódico de alto impacto reafirma o rigor metodológico da pesquisa e consolida um esforço global indispensável para o monitoramento e a prevenção de futuras ameaças à saúde pública. É uma contribuição para avançarmos de uma ciência reativa para uma ciência proativa”, afirma.
Contribuição da Uema para a pesquisa
A participação da Universidade Estadual do Maranhão evidencia a contribuição da universidade pública para a produção científica e a formação de pesquisadores inseridos em investigações de alcance internacional. Nesse contexto, o Programa de Pós-Graduação em Ciência Animal (PPGCA) tem papel importante na qualificação de profissionais e no desenvolvimento de pesquisas que integram saúde animal, vigilância e conhecimento científico.
Francisco Borges Costa destaca que a participação da Uema também demonstra a relevância da articulação entre instituições brasileiras. A colaboração teve início na Universidade Estadual Paulista (Unesp), com a participação dos campi de Botucatu, representado pela professora Jane Megid, e de Jaboticabal, pelo professor Mateus de Souza Ribeiro Mioni. Posteriormente, a Uema passou a integrar a rede de pesquisadores envolvidos no trabalho.
Um dos exemplos dessa contribuição é o Dr. Eric Takashi Kamakura de Carvalho Mesquita, que participou das atividades de campo durante o doutorado e atualmente atua como Coordenador do Laboratório de Zoonoses no Laboratório Central de Saúde Pública do Maranhão (LACEN-MA) e Fiscal Agropecuário da Agência Estadual de Defesa Agropecuária do Maranhão (AGED-MA)
“Esta publicação evidencia a importância da colaboração entre universidades públicas brasileiras. A aproximação entre instituições permite reunir competências, compartilhar experiências e desenvolver estudos de maior alcance e relevância. Além de fortalecer a ciência nacional, parcerias como essa ampliam a visibilidade das universidades públicas brasileiras no cenário científico internacional”, ressalta Costa.
O pesquisador também enfatiza a importância da parceria com a Unesp e com as instituições internacionais envolvidas, especialmente a The University of Osaka, no Japão, responsável pela liderança científica da pesquisa.
“Para nós, é um orgulho ver a Uema consolidando seu espaço nessa rede de colaboração, ao lado da Unesp, em seus campi de Botucatu e Jaboticabal, e de prestigiadas instituições internacionais. Entre elas, destaco especialmente a The University of Osaka’, representada pela Dra. Tokiko Watanabe, que liderou brilhantemente esta pesquisa do início ao fim”, afirma.
Ciência como caminho para prevenir ameaças
Ao destacar a importância da pesquisa científica, Francisco Borges Costa incentiva estudantes e pesquisadores a persistirem na produção de conhecimento capaz de responder a desafios globais. Para ele, investigar a história evolutiva dos vírus permite compreender melhor como esses agentes se diversificam e quais características merecem atenção científica.
“A ciência sempre nos revela a verdade. Ir em busca dessa história evolutiva nos faz compreender como os desafios globais surgem e, ao mesmo tempo, como podemos mitigá-los da melhor forma possível. Este trabalho é um belo exemplo de ciência proativa. Que ele sirva de inspiração para que muitos dos nossos colegas continuem pesquisando e produzindo conhecimento transformador para a humanidade”, conclui.
Acesse o artigo científico: A divergent betacoronavirus with a functional furin cleavage site in South American bats, publicado na revista Nature Communications.
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