Por: Walter Canales Sant´Ana| Reitor da Universidade Estadual do Maranhão
Celebrar o Dia dos Professores é reconhecer uma das profissões mais decisivas para o desenvolvimento de uma sociedade. É também uma oportunidade de refletir sobre o significado de educar em um mundo marcado por rápidas transformações tecnológicas, profundas desigualdades sociais e novos desafios para a formação humana. Mais do que homenagear quem ensina, esta data nos convida a reafirmar o compromisso coletivo com a educação e com a valorização daqueles que fazem dela uma prática cotidiana de transformação.
O professor nunca foi apenas aquele que transmite conhecimentos. Ao longo da história, seu papel acompanhou as mudanças da sociedade, ampliando-se para além dos conteúdos curriculares. Na contemporaneidade, educar significa também desenvolver o pensamento crítico, estimular a curiosidade, promover o diálogo e preparar pessoas para compreender e intervir na realidade em que vivem. Nesse contexto de sociedade em rede, de cultura digita, na qual a informação circula em velocidade extraordinária, o desafio não é apenas ensinar a
acessar conteúdos, mas formar sujeitos capazes de interpretá-los, questioná-los e transformá-los em conhecimento.
Sabemos que nenhuma tecnologia, por si só, garante uma educação de qualidade. Por isso, pensar o futuro da educação não significa substituir o professor pela tecnologia, mas assegurar que ele disponha de formação, condições de trabalho e autonomia para utilizar criticamente as novas ferramentas. Significa compreender que a inovação educacional exige investimento nas pessoas, reconhecimento profissional e oportunidades permanentes de aperfeiçoamento.
Essa reflexão encontra ressonância no pensamento de Paulo Freire, para quem a educação deve contribuir para que homens e mulheres compreendam criticamente o mundo e reconheçam sua capacidade de transformá-lo. Em Educação como Prática da Liberdade, o educador brasileiro afirma que a educação é um ato de amor e, por isso, um ato de coragem. Essa compreensão nos lembra que ensinar requer mais do que domínio técnico: exige compromisso ético, disposição para o diálogo e confiança na capacidade humana de aprender e construir novos caminhos.
A coragem de educar manifesta-se diariamente, no nosso cotidiano. Está na professora que enfrenta as dificuldades de uma sala de aula e busca alternativas para que nenhum estudante seja deixado para trás; no professor que revê suas práticas, reconhece os próprios limites e permanece aberto ao aprendizado; e naqueles que, mesmo diante de condições adversas, continuam acreditando que o conhecimento pode ampliar horizontes e criar oportunidades.
Somos apegados a esperança, ou seja, temos sempre a expectativa de que algo positivo aconteça ou de que uma situação difícil melhore, unindo emoção, razão e vontade de agir. Nós, professores, temos o dom de transformar o sentimento em movimento. Temos o “esperançar” como verbo de força do nosso dia a dia.
Entretanto, não podemos transformar essa dedicação em justificativa para naturalizar as dificuldades enfrentadas pela categoria. Reconhecer a importância dos professores significa também defender condições dignas de trabalho, remuneração adequada, formação continuada, infraestrutura, autonomia pedagógica e políticas públicas consistentes. A valorização docente não pode se limitar a discursos comemorativos: precisa traduzir-se em compromissos
institucionais, decisões políticas e ações concretas.
Essa responsabilidade é ainda mais significativa quando pensamos na educação como instrumento de redução das desigualdades. Em um estado como o Maranhão, onde a ampliação das oportunidades educacionais permanece fundamental para o desenvolvimento social, o trabalho dos professores tem um alcance que ultrapassa os limites da sala de aula. Cada estudante que conquista acesso ao conhecimento amplia suas possibilidades de escolha, participação cidadã e construção de um futuro com mais dignidade.
É nesse horizonte que se insere a missão mais genuína da Universidade Estadual do Maranhão: “Produzir e difundir conhecimento de forma inclusiva, promovendo o desenvolvimento sustentável do Maranhão, formando profissionais críticos e éticos”. A presença da nossa Instituição em diferentes territórios do estado, por meio de diferentes programas de formação superior, aproxima o conhecimento acadêmico das realidades locais e fortalece a possibilidade de que a educação superior produza efeitos concretos na vida das comunidades.
Investimos em uma educação que se multiplica. O conhecimento construído na universidade chega às escolas, alcança crianças, jovens e adultos e contribui para formar novas gerações no nosso estado, no nosso país. Cada profissional que qualificamos, por meio da educação superior, representa uma oportunidade de ampliar o acesso ao saber, fortalecer a cidadania e construir relações sociais mais justas, mais humanas.
Também precisamos reconhecer que a formação docente não se encerra com a conclusão de um curso e lembrar sempre que a educação é um bem que devemos conquistar por toda a vida. Como afirma António Nóvoa, em Formação de Professores e Profissão Docente, a formação dos professores é um processo contínuo e complexo que exige uma articulação entre teoria e prática, reflexão crítica e ação transformadora.
Assim, ser professor é permanecer estudante, pesquisar, questionar certezas, aprender com a experiência e rever caminhos quando a realidade exige novas respostas. Essa disposição para aprender continuamente não diminui a autoridade do educador; ao contrário, fortalece sua responsabilidade intelectual e sua capacidade de formar pessoas autônomas e críticas.
No Dia dos Professores, portanto, nossa homenagem deve vir acompanhada de uma reflexão sobre o projeto de sociedade que colaboramos para construir e fortificar. Se queremos um país mais democrático, menos desigual, inovador e socialmente justo, precisamos colocar a educação no centro das nossas prioridades e reconhecer os professores como protagonistas desse processo.
A todos os professores e professoras, das escolas às universidades, que dedicam seu trabalho à formação humana, científica e cidadã, expresso meu reconhecimento e minha gratidão. Que esta data renove não apenas o orgulho pela profissão, mas também a esperança de que o compromisso de educar seja acompanhado pelo compromisso permanente de valorizar quem educa.
Saibamos sempre: o próprio ato de educar nos transforma enquanto educadores.
Um viva a todos os professores deste país!
