A presença do guariba-da-caatinga (Alouatta ululata), primata endêmico do Nordeste brasileiro e classificado como ameaçado de extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), foi registrada em quantidade significativa no município de Humberto de Campos, no litoral oriental maranhense. Os dados são resultado de uma pesquisa desenvolvida na Universidade Estadual do Maranhão (Uema), com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema), que amplia o conhecimento sobre a distribuição da espécie e reforça a importância da conservação de seu habitat.
O estudo foi realizado pela graduanda em Ciências Biológicas da Uema, Iasmin de Castro da Silva, no âmbito do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC). Intitulada “Abundância, densidade e tamanho populacional de primatas nas cidades de São Luís e Humberto de Campos”, a pesquisa percorreu 247,2 quilômetros ao longo de cinco etapas de campo, entre setembro de 2023 e janeiro de 2024.
Embora o projeto previsse atividades em São Luís e Humberto de Campos, as características das áreas da capital levaram os pesquisadores a concentrarem o trabalho no município do litoral maranhense, onde ainda havia poucas informações sobre a ocorrência do guariba-da-caatinga.
Durante o levantamento, foram registrados, em média, 6,1 avistamentos de guariba-da-caatinga a cada 10 quilômetros percorridos, além de quatro avistamentos de macaco-prego-castanho (Sapajus apella) na mesma distância. Os índices representam a frequência de encontro com os animais durante os percursos e permitem comparar a ocorrência das espécies com estudos realizados em outras regiões.
“Os avistamentos representam a taxa de encontro que temos com aquele animal a cada quilômetro percorrido. Quando comparamos esses dados com outras pesquisas, percebemos que encontramos taxas maiores do que as registradas em diferentes áreas de estudo”, explica Iasmin de Castro da Silva.
A pesquisadora destaca que o monitoramento foi realizado em três rotas fixas, com extensão entre 3,3 e 4,8 quilômetros, percorridas mensalmente nos períodos da manhã e da tarde. Para o registro dos animais foram utilizados binóculos e câmera com superzoom, permitindo identificar o tamanho dos grupos e coletar informações sobre o comportamento dos primatas.
O trabalho foi orientado pela professora Lígia Tchaicka e integrou uma pesquisa mais ampla desenvolvida no mestrado da pesquisadora Celene Carvalho de Sousa, voltada ao estudo da distribuição e da adequabilidade ambiental do guariba-da-caatinga.
Alerta para a conservação
Além de levantar dados sobre a ocorrência dos primatas, a pesquisa contribuiu para avaliar a qualidade ambiental da região estudada. Os primatas desempenham papel fundamental na dispersão de sementes e na regeneração das florestas, sendo considerados importantes indicadores da conservação dos ecossistemas.
Durante o estudo, foram observados grupos com até oito indivíduos, além de animais solitários. Os registros ocorreram principalmente em trechos com menor presença humana, enquanto áreas que apresentavam sinais mais evidentes de ocupação registraram menor frequência da espécie.
“É uma espécie que ocorre em uma área que ainda apresenta boas condições para sua sobrevivência, mas que já demonstra sinais de desmatamento. Isso representa um alerta para a conservação da biodiversidade”, ressalta a pesquisadora.
A área pesquisada está inserida na Área de Proteção Ambiental (APA) de Upaon-Açu/Miritiba/Alto Preguiças, que reúne ecossistemas como restingas e manguezais. O rio Mapari e seus igarapés também são utilizados pelas comunidades locais para deslocamento e atividades pesqueiras, o que evidencia a necessidade de conciliar o uso dos recursos naturais com a preservação ambiental.
Segundo Iasmin, a ocorrência frequente do guariba-da-caatinga demonstra que o ambiente ainda oferece disponibilidade de alimento, água e cobertura vegetal suficientes para a espécie. No entanto, os indícios de degradação observados durante as expedições reforçam a importância do monitoramento contínuo da região.
Pesquisa amplia conhecimento sobre a fauna maranhense
Além dos registros de primatas, o trabalho também documentou outras espécies da fauna local, como quatis e preguiças, formando um banco de dados que poderá subsidiar novas pesquisas sobre a biodiversidade maranhense.
“Enquanto realizávamos o monitoramento dos primatas, também registrávamos outros animais encontrados durante os percursos. Isso acabou formando um pequeno banco de dados que pode contribuir para futuros estudos”, relata a estudante.
Para a pesquisadora, a experiência evidencia o papel da iniciação científica na formação de novos pesquisadores e na produção de informações que podem orientar ações de conservação de espécies ameaçadas.
O apoio da Fapema foi fundamental para a execução do estudo, possibilitando a realização das atividades de campo fora de São Luís.
“O apoio da Fapema permitiu desenvolver a pesquisa em outro município, contribuindo com deslocamento e alimentação, o que trouxe tranquilidade para a realização do trabalho de campo”, conclui Iasmin.
