Os embuás, também conhecidos como gongolos, piolhos-de-cobra ou maria-café, costumam chamar atenção quando aparecem em grande quantidade. Em algumas regiões do Maranhão, a proliferação desses invertebrados chegou a causar preocupação entre moradores, especialmente durante o período chuvoso. O que muitos não sabem é que esses animais desempenham um papel importante na natureza e podem ser utilizados como aliados da agricultura sustentável.
Na Universidade Estadual do Maranhão (Uema), pesquisadores do Núcleo de Estudos em Agroecologia e Produção Orgânica (NEAPO), vinculado ao curso de Agronomia, desenvolvem um trabalho voltado à chamada gongocompostagem, técnica que utiliza embuás para transformar resíduos orgânicos em um composto rico em nutrientes, conhecido como gongocomposto.
A iniciativa é coordenada pela professora Maria Rosangela Malheiros Silva, do Centro de Ciências Agrárias (CCA) e busca promover o aproveitamento sustentável de resíduos agrícolas e urbanos, contribuindo para a redução dos impactos ambientais e para a produção de substratos utilizados no cultivo de mudas e hortaliças.
Segundo a pesquisadora, a experiência desenvolvida na Uema teve como base estudos já consolidados pela Embrapa Agrobiologia, no Rio de Janeiro, coordenados pela pesquisadora Maria Elizabeth Fernandes Correia, referência nacional nas pesquisas com gongocompostagem. A partir da literatura científica produzida pela instituição, a equipe do NEAPO adaptou a tecnologia à realidade maranhense e passou a desenvolver atividades de ensino, pesquisa e extensão envolvendo estudantes do curso de Agronomia.
“Os estudos da Embrapa já demonstravam a eficiência dos embuás na produção de um composto orgânico de excelente qualidade. A partir dessas pesquisas, decidimos aplicar a tecnologia na Uema e observar seus resultados em nossas condições locais”, explica a professora.
A técnica consiste em disponibilizar resíduos vegetais secos, como folhas, restos de poda e papelão, para que os embuás realizem a fragmentação desse material. Durante o processo, os animais produzem pequenos grânulos fecais ricos em matéria orgânica estabilizada, formando o gongocomposto, que pode ser utilizado como adubo orgânico ou substrato para produção de mudas.
Além da produção sustentável de insumos agrícolas, o projeto ganhou ainda mais relevância diante dos recentes episódios de proliferação de embuás registrados em municípios maranhenses. Segundo a professora Maria Rosangela Malheiros Silva, após tomar conhecimento da situação, a equipe da Uema entrou em contato com a pesquisadora Maria Elizabeth Fernandes Correia, da Embrapa Agrobiologia, no Rio de Janeiro, referência nacional nos estudos sobre gongocompostagem e comportamento desses organismos.
Com base em sua experiência científica, a pesquisadora explicou que o aumento populacional dos embuás está geralmente associado ao período chuvoso, quando as condições de elevada umidade favorecem a reprodução da espécie. A partir da troca de informações entre a Uema e a Embrapa, foram discutidas alternativas sustentáveis para o manejo desses animais, evitando o uso de produtos químicos que podem causar impactos ao meio ambiente.
Entre as orientações apresentadas está a formação de pilhas de resíduos orgânicos em áreas afastadas das residências. A estratégia permite concentrar os embuás nesses locais, reduzindo sua presença nas áreas urbanas e, ao mesmo tempo, possibilitando seu aproveitamento na produção de composto orgânico de alta qualidade para uso agrícola.
“A recomendação é aproveitar esse potencial natural. Em vez de eliminar os embuás, eles podem ser utilizados para transformar resíduos em adubo de qualidade, beneficiando agricultores e contribuindo para a sustentabilidade ambiental”, destaca.
Desde 2022, estudantes da Uema participam da implantação e manutenção do gongolário, espaço destinado à criação e ao manejo dos embuás, na Fazenda Escola da instituição, em São Luís. O local funciona como ambiente de aprendizagem prática e também recebe visitas de agricultores, técnicos, estudantes e membros da comunidade interessados em conhecer a tecnologia.
A expectativa é ampliar a divulgação da gongocompostagem junto a produtores rurais e profissionais da assistência técnica, fortalecendo o uso de soluções de baixo custo para o aproveitamento de resíduos orgânicos e a produção sustentável de alimentos.
Ao transformar um organismo frequentemente associado a incômodos em uma ferramenta de educação ambiental e inovação agrícola, a pesquisa desenvolvida pela Uema apresenta soluções sustentáveis para desafios locais, aproximando conhecimento científico e necessidades da sociedade.





