A Universidade Estadual do Maranhão (Uema) protagoniza uma descoberta inédita para a Entomologia brasileira em pesquisa coordenada pela Profa. Dra. Joseane Rodrigues de Souza, líder de grupo de pesquisa cadastrado no CNPq “Controle bioecológico de percevejos fitófagos nas culturas do arroz e da soja no Estado do Maranhão” em parceria com outros pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Pesquisadores da instituição registraram pela primeira vez a ocorrência do percevejo predador, Andrallus spinidens em lavouras de arroz no Maranhão, Brasil. O achado ocorreu no município de Itapecuru-Mirim, durante a safra 2021/2022, e acaba de ser publicado na Revista Entomological Communications.
O estudo, “First report of Andrallus spinidens Fabricius (1787) (Hemiptera: Asopinae) in rice crops in Brazil” identificou adultos da espécie predando lagartas de Mocis latipes, desfolhador do arroz com potencial de danos significativos à produção de arroz no estado. A descoberta abre perspectivas para uso do controle biológico com o predador no manejo integrado da espécie ao reduzir a dependência de defensivos agrícolas e promovendo uma produção mais sustentável.
A pesquisa foi conduzida pelo discente, Matheus H. F. Lima, bolsista voluntário (PIVIC/UEMA Ciclo 2022/2023) do Curso de Agronomia, Centro de Ciências Agrárias e orientado pela Profa. Dra. Joseane Rodrigues de Souza com o projeto intitulado “Diversidade de percevejos (Pentatomidae) associados ao arroz no Maranhão: pragas e predadores” e contou com a parceria de outros discentes e bolsistas (PIBIC, BATI/PPG – Uema) do Curso de Agronomia – Roberto S. Graça Júnior, Ellen C. C. de Aragão, Alaide P. Lima, João V. S. Camara, Pedro L. E. R. Cardoso e John J. S. Ausique, além de pesquisadores que atuam na Taxonomia de Pentatomídeos da UFRGS – Jocélia Grazia, Lurdiana D. Barros e Ricardo Brugnera.
Em Itapecuru-Mirim, a coleta ocorreu em uma área de 1 hectare de arroz, no Assentamento Cristina Alves, Vila 17 de abril. O plantio aconteceu em dezembro de 2021, e as amostragens começaram 25 dias após a emergência das plantas, com avaliações semanais em zigue-zague até o fim do ciclo reprodutivo da cultura. Os pesquisadores identificaram dez espécimes de Andrallus spinidens.

O material coletado na lavoura de arroz foi enviado para identificação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) onde encontra-se depositado assim como na Coleção Entomológicas “Iraci Paiva Coelho” (CIPC-UEMA) no Curso de Agronomia, São Luís, MA.
O estudo também relata um exemplar coletado em 1981 em Roraima, cuja etiqueta informa “Roraima”, “15/09/1981”, “Alfredo” e “Rice”. Os autores indicam esse achado como possível primeiro registro histórico da espécie no país, embora não seja possível determinar com precisão a origem da ocorrência no Brasil – se nativa, introdução acidental ou migração.
Para a professora Joseane R. de Souza, orientadora do estudo, “Registamos pela primeira vez no Brasil o percevejo predador, Andrallus spinidens atuando no controle biológico natural da lagarta desfolhadora, Mocis latipes em lavoura de arroz nomunicípio de Itapecuru-Mirim, MA. Essa espécie causa danos significativos nas lavouras de arroz no Maranhãoe a publicação destaca-se como uma importante contribuição para o controle biológico no Brasil e manejo de M. latipes e de outros larvas de lepidópteros de ocorrência no local contribuindo com a diminuição natural da população da praga no arroz ao proporcionando um equilíbrio sustentável na lavoura de arroz”.
Outro vértice da contribuição é a atualização das espécies de pentatomídeos predadores encontradas em arrozais no estado do Maranhão e no Brasil abrindo perspectivas para o avanço de outros estudos para o uso em programas de controle biológico visando o controle de M. latipes.
Sobre o Andrallus spinidens: A espécie pertence à subfamília Asopinae, grupo de percevejos predadores. A espécie possui hábito polífago e ocorre em regiões tropicais e temperadas quentes, com registros de predação sobre lagartas, coleópteros e himenópteros. Os cientistas apontam possível estabelecimento da espécie em Itapecuru-Mirim e recomendam o monitoramento contínuo em áreas de arroz para apoiar o manejo de Mocis latipes e de outros lepidópteros.
A pesquisa da Uema coloca o Maranhão no centro de uma descoberta de relevância nacional para a entomologia e para a agricultura, demonstrando como a ciência produzida na universidade pública pode gerar soluções concretas para o campo, aliando produtividade e sustentabilidade.