Por: Dr. José Roberto Pereira de Sousa[1]| Professor Universidade Estadual do Maranhão
A Amazônia é um bioma de relevância global, tanto pela diversidade biológica quanto pelos serviços ecossistêmicos que oferece. Contudo, mesmo abrigando a maior floresta tropical do planeta[1], na Amazônia, ainda persistem lacunas significativas no conhecimento científico que comprometem a compreensão integral de sua biodiversidade e dificultam a formulação de políticas de conservação.
Neste cenário, alguns fatores têm contribuído para a existência de lacunas no conhecimento da biodiversidade, como por exemplo, Inventários insuficientes (vastas áreas permanecem sem levantamento sistemático da fauna e flora, sobretudo em regiões remotas); Grupos taxonômicos negligenciados, tais como insetos e microrganismos (apesar da importância ecológica, ainda são pouco estudados); e Mudanças climáticas (existência de poucos estudos que correlacionem vulnerabilidade de espécies negligenciadas com cenários de alteração climática).
As consequências da existência dessas lacunas são basicamente: o Planejamento limitado, pois as políticas de conservação carecem de dados robustos; a Perda invisível de biodiversidade, uma vez que espécies podem ser extintas antes mesmo de serem descritas, e além disso o Impacto global, pois considerando que o bioma Amazônia influencia o clima e a biodiversidade mundial, essas lacunas têm implicações além das fronteiras brasileiras.
Em um estudo recente “Accessibility drives research efforts on Amazonian sarcosaprophagous flies”[2], publicado na revista internacional Proceedings of the Royal Society B, os pesquisadores compilaram e analisaram mais de 8 mil registros de ocorrência de moscas decompositoras das famílias Calliphoridae, Mesembrinellidae e Sarcophagidae em toda a Amazônia brasileira, destacando que até mesmo grupos essenciais, como as moscas sarcosaprófagas, apresentam lacunas significativas de conhecimento, o que compromete a compreensão dos processos ecológicos associados à decomposição e ciclagem de nutrientes.
Esses táxons dessas três famílias de moscas sarcosaprófagas, apresentam ampla distribuição em ambientes tropicais, como a Amazônia, e desempenham papéis fundamentais na saúde pública e no funcionamento dos ecossistemas[3], porque durante a fase de larva, consomem diretamente tecidos em decomposição, acelerando o processo de reciclagem da matéria orgânica, especialmente carcaças de animais.
Os autores desse estudo “Accessibility drives research efforts on Amazonian sarcosaprophagous flies”[4] revelaram as principais lacunas e os principais fatores que impulsionam o conhecimento sobre moscas sarcosaprófagas na Amazônia brasileira, destacando áreas geográficas e grupos taxonômicos que devem ser priorizados em futuros inventários para evitar vieses que comprometam as análises ecológicas e a compreensão dos padrões regionais. Foi demonstrando claramente que a mudança desses vieses exige mais do que apenas o aumento dos esforços de pesquisa ou das coleções.
Neste contexto, a concentração de registros em áreas acessíveis e já alteradas contrasta com a invisibilidade científica de regiões remotas e preservadas, onde cerca de 40% apresentam probabilidade de conhecimento inferior a 10%. Esse padrão reforça que a ciência amazônica tem investido de forma desproporcional em locais de fácil acesso, deixando de explorar áreas críticas para a conservação e para a compreensão integral da biodiversidade.
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Dessa forma, a redução das lacunas de conhecimento sobre a biodiversidade amazônica exige estratégias que transcendam a intensificação de pesquisas em áreas já exploradas. Expedições científicas em regiões remotas, aliadas ao engajamento de comunidades locais e tradicionais[5], são fundamentais para gerar informações que subsidiem políticas públicas de conservação e manejo sustentável, promovendo uma ciência comprometida com as pessoas que habitam a floresta.
Assim, a invisibilidade de grande parte da biodiversidade amazônica em regiões remotas reforça a urgência de iniciativas estruturadas em redes de pesquisa, projetos de larga escala e financiamento duradouro. O compartilhamento de dados e a cooperação entre instituições e comunidades locais são elementos-chave para superar os desafios logísticos e operacionais[6], transformando a união de esforços em condição indispensável para o avanço científico e para a formulação de políticas públicas eficazes.
Além disso, é crucial enfatizar a importância do investimento na formação e capacitação de taxonomistas e ecólogos na Amazônia brasileira, especialmente para grupos taxonômicos menos carismáticos e negligenciados, que possuem alta relevância ecológica e respostas rápidas às mudanças ambientais. Projetos, iniciativas e editais de financiamento em larga escala são urgentemente necessários para apoiar coleções e pesquisas que alcancem regiões remotas, garantindo parcerias com comunidades tradicionais e povos indígenas da Amazônia brasileira. Adicionalmente, melhorias na infraestrutura, como laboratórios e coleções científicas das instituições de pesquisas brasileiras (Universidades, Museus), também são essenciais para atingir esses objetivos.
Com estudos como esse, a Uema fortalece a produção científica, amplia o conhecimento sobre a biodiversidade brasileira e contribui para o desenvolvimento de ações que apoiam a conservação ambiental e a tomada de decisões em benefício da sociedade.
Convido a todos a acessarem meu artigo completo sobre a temática – em parceria com pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA), da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e da University of Bristol/UFPA – publicado na revista internacionalThe Royal Society: https://sl1nk.com/Gt6fF
[1] Bolsista de Produtividade em Pesquisa FAPEMA/CNPq – PQ Nível C.
[1] https://www.nationalgeographicbrasil.com/meio-ambiente/2024/09/dia-da-amazonia-os-3-dados-que-mostram-em-numeros-a-magnitude-da-maior-floresta-tropical
[2] https://doi.org/10.1098/rspb.2025.2109
[3] “The effects of cattle ranching on the communities of necrophagous flies (Diptera: Calliphoridae, Mesembrinellidae and Sarcophagidae) in Northeastern Brazil” (https://doi.org/10.1007/s10841-020-00246-y)
[4] https://doi.org/10.1098/rspb.2025.2109
[5] https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0960982 223008631#sec3
[6] https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2530064424000038
